Entrevista do Sr. Embaixador Luís de Almeida Sampaio ao Portugal Post

O Embaixador da Mudança:


Não Gosta de Lamúrias!

“Vamos fazer diplomacia económica e melhorar a imagem do nosso país na Alemanha” – foi com esta frase que Luís D’Almeida Sampaio iniciou a sua missão de Embaixador na Alemanha em 1 de Abril de 2012. Um embaixador com um currículo marcado por sucessos em missões difíceis e que chegou a Berlim com uma agenda ambiciosa: criar uma nova dinâmica entre Portugal e a Alemanha, entre os portugueses e os alemães, e operar mudanças de mentalidade. Recebeu-nos gentilmente na Embaixada para conversarmos sobre o modus operandi da sua missão.

PP – Quais são os principais objectivos da missão do Senhor Embaixador na Alemanha?

Embaixador: Os principais objectivos prendem-se com passar a mensagem de que Portugal é uma história de sucesso. Em segundo lugar criar uma dinâmica que promova efectivamente a diplomacia económica que não esqueça, pelo contrário, que expanda, ou que contribua para expandir, a presença cultural portuguesa na Alemanha e, evidentemente, pôr a embaixada cada vez mais ao serviço dos portugueses que aqui vivem e trabalham. É uma agenda ambiciosa – mas que eu definiria como uma agenda realista e uma agenda possível. O objectivo de passar a mensagem de que Portugal é uma história de sucesso prende-se, evidentemente, com as medidas que estamos a assumir para ultrapassar a crise. As outras dimensões, são dimensões por que eu tenho muito carinho e sobre as quais tenho muito gosto em detalhar o meu pensamento.

PP – Numa altura em que Portugal se encontra nas mãos de entidades estranhas ao país devido à situação de crise económico-financeira, o que é que o Senhor Embaixador poderá fazer para tentar alterar a imagem de Portugal como país resgatado e com fama de ser um pouco como a Grécia? Porque é esta a imagem que os Media alemães estão a passar aos seus leitores. Como é que o Senhor Embaixador pretende proceder para contrariar esta visão?

Emb.: Agradeço-lhe muito a pergunta que faz porque é muito importante e oportuna. Eu diria que, Portugal e o seu destino estão, como sempre estiveram, nas mãos dos portugueses. Não estão nas mãos de estranhos. Sempre estiveram nas nossas mãos. E nós sempre demonstrámos isso mesmo, ao longo da história, sobretudo nos momentos mais difíceis. Mesmo em períodos em que tudo parecia altamente cinzento, nós soubemos encontrar um caminho para o futuro. Fizemo-lo nos últimos oito séculos, ou mais de oito séculos, portanto, somos uma nação antiga e um povo com raízes profundamente ancoradas na história e na cultura, somos uma nação homogénea e portanto não temos nada a temer em relação ao futuro. Quanto à imagem de Portugal, eu diria que é evidente que, mesmo os observadores mais críticos, sabem que nós não temos nada a ver com outros exemplos menos bem-sucedidos, em relação aos quais nós temos simpatia e solidariedade, que eu não quero propositadamente estar a nomear pelo nome, mas que não são iguais a Portugal. Nós temos, neste momento, que vencer a crise económica e financeira, que é uma crise económico-financeira global, mas que nos apanhou muito impreparados porque não tínhamos feito, nas últimas décadas, as necessárias reformas estruturais. E este é que é o grande desafio do momento presente. É evidente que, paralelamente às reformas estruturais, é preciso fazer consolidação das nossas finanças, o que implica disciplina fiscal e implica redução da dívida, sobretudo da dívida pública. Ora bem, Portugal está a fazer isto de uma forma exemplar e todos os observadores atentos reconhecem que Portugal está, não só a cumprir aquilo a que se comprometeu, e comprometeu-se para seu próprio benefício em primeiro lugar, mas estamos mesmo a ir além das expectativas dos mais exigentes. E não está a fazê-lo para ser simpático ou para ser bom menino. Portugal está a fazer isto porque sabe que – é o único caminho que temos! Porque é uma verdade insofismável em relação à qual, ou em torno da qual, todos os economistas estão de acordo: não é possível haver crescimento económico sustentado sem finanças em ordem. Isto é uma realidade que qualquer economista subscreveria e ensinaria aos seus alunos no caso de ser um professor universitário. É evidente que não é fácil, quando se parte de uma situação de deficit como a nossa, quando se parte de uma situação de desequilíbrio fiscal como a nossa, e quando se parte da necessidade de fazer profundas reformas estruturais. Nós temos a sorte de Portugal ter condições políticas únicas. Novamente, muito diferentes das de outros países que se encontram em situação porventura muita vezes comparada erradamente pela comunicação social à nossa. Temos uma situação política única porque todos os partidos, daquilo a que se convencionou chamar o arco da governação, são partidos que compreendem que só compromissos com as instituições financeiras internacionais que permitam pôr as finanças em ordem e depois relançar o crescimento e a criação de emprego são o caminho. Há evidentemente opiniões diferentes sobre o faseamento, opiniões diferentes sobre o tempo, opiniões diferentes sobre esta medida ou aquela, há várias receitas para alcançar o mesmo objectivo. Mas o objectivo de pôr as finanças em ordem, introduzir disciplina fiscal, fazer as reformas estruturais que nunca foram feitas, para então de uma forma sólida, sustentada e séria promover crescimento económico e criar emprego, isso, genericamente, os partidos do arco da governação estão de acordo, o que nos coloca a nós portugueses numa situação muito confortável. Por outro lado, nós temos um notável consenso social em torno das medidas que estão a ser tomadas. É evidente que os jornais gostam muito de chamar a atenção para as clivagens, para as crises anunciadas. Ainda há bem pouco tempo, um alto responsável português falava da artificialidade de muitas crises. É evidente que a comunicação social cumpre o seu papel mas, o que é certo é que o consenso social em Portugal – existe. Qualquer observador compreende que a situação social em Portugal não tem paralelo com a situação em outros países. Ora bem, porque é que isto é importante para a Alemanha e porque é que isto é importante para a Europa? Isto é importante para a Alemanha, porque a Alemanha só tem a ganhar com uma história de sucesso no sul da Europa, porque a Alemanha é a principal economia europeia, é o principal motor económico do nosso continente, e a Alemanha é o principal promotor também, e motor das medidas de consolidação financeira, económica e fiscal que estão a ser neste momento aplicadas aos países que estão com maior necessidade.
PP– Embora haja bastante discordância!

Emb.: Há um debate político em curso que é perfeitamente normal. Há um debate político em curso quer na Alemanha quer em Portugal, quer em França, quer em outros países. Há um debate político que tem sobretudo a ver com mais enfoque em austeridade ou mais enfoque em crescimento. Vamos começar imediatamente medidas de expansão, ou vamos corrigir aquilo que é necessário corrigir como prioridade? Mas isto são questões políticas, são questões em relação às quais os peritos debatem. Agora o pano de fundo é que – é necessário enfrentar a crise com seriedade. Não é de maneira nenhuma passando as culpas para os outros, inventando bodes expiatórios, achando que não é preciso fazer nada, achando que aquilo que se fez no passado estava sempre bem feito. Não é por aí que vamos lá. E, repito, a Alemanha está muito interessada em que Portugal seja uma história de sucesso. E isso é também no superior interesse da UE. A UE precisa de uma história de sucesso, o Euro precisa de uma história de sucesso. Repare que a tempestade em torno da situação financeira do Euro, ou em torno da crise do Euro, não é inocente. Há, evidentemente, muitos interesses em jogo e esses interesses não são no nosso interesse. O nosso interesse como europeus, como responsáveis membros da UE e da sua construção cada vez mais eficaz, do seu aprofundamento, como bloco, e não só do nosso interesse como país, como povo, como tecido social, como tecido económico. Portanto há, da nossa parte, toda consciência de que é do superior interesse da União Europeia que Portugal vença a crise. Como é que se vence a crise? Vence-se da forma que está a ser posta em prática e os resultados começam a estar à vista e começam a ser reconhecidos. E, isto que eu digo, soa a verdade – porque é verdade! E hoje os nossos interlocutores alemães compreendem muito bem isto. E compreendem que Portugal está a fazer aquilo que é necessário fazer. Repare que nós não estamos a pedir situações de favor, nem estamos a pedir mais dinheiro, nem estamos a pedir mais tempo, nem estamos a pedir perdão da dívida. Nós estamos a fazer aquilo que nos compete e vamos ser recompensados por isso mesmo. Não tenho sobre isso a mais pequena dúvida.

PP – O resto da pergunta era como é que o Senhor Embaixador poderá persuadir os Media alemães que nós somos diferentes durante a sua missão neste pai?.

Emb.: Sabe que há um papel fundamental que compete à missão de um embaixador. O embaixador representa, como sabe, o Estado, não representa um governo. Representa o Estado e, neste sentido, tem uma visão sobre a situação do seu próprio país, do país que representa, que é uma visão que necessariamente vai para além do debate político-partidário quotidiano. E isso é compreendido e respeitado. Portanto eu colocar-me-ei sempre numa perspectiva que transcende o debate imediato e que me colocará sempre numa perspectiva de mais médio e longo prazo. Isso é muito apreciado na Alemanha. É evidente que temos que ser muito sérios na nossa abordagem e as iniciativas que eu já iniciei no sentido de tornar mais visível e mais comunicativa a actividade da embaixada têm que ser iniciativas com uma grande seriedade técnica, profissional e diplomática. Nós iniciámos uma nova imagem nas redes sociais, temos uma página no facebook e temos uma conta twitter. Iniciámos, recentemente, uma Newsletter económica em alemão destinada aos nossos interlocutores alemães, empresas, economistas, decisores políticos, decisores económicos e que, no fundo, tenta transcrever esta caminhada de Portugal rumo à recuperação económica. É evidente que eu serei sempre incansável nas minhas intervenções públicas, participação em debates, na minha disponibilidade para estar presente em seminários, em mesas redondas, em entrevistas. Isso é fundamental. Claro que, em última análise, o mais importante serão os resultados. Ora bem, do ponto de vista económico nós temos duas vias essenciais para mostrar resultados em relação à Alemanha, designadamente: uma é procurarmos atrair mais investimento alemão para Portugal. Porque é que pensamos que isso é bom para a Alemanha e não só para Portugal? Nós temos efectivamente casos de sucesso, clusters económicos, que demonstram que investir em Portugal é bom. Investir em Portugal, diria eu, é mesmo muito bom!
PP – Em que sectores?

Emb.: Nos sectores onde nós estamos neste momento a dar cartas, como se diz popularmente, nós temos no domínio das energias, sobretudo das energias renováveis, em que temos uma reputação internacional cada vez melhor estabelecida. Como sabe, a grande “Meca” internacional das energias renováveis, sobretudo, é Houston, no Texas, nos EUA. Ainda recentemente numa classificação produzida pelas melhores instituições baseadas em Houston identificava a companhia portuguesa EDP Renováveis como a quarta mais avançada do mundo tecnologicamente em termos de energias renováveis. Isto é um prestígio enorme. É um orgulho muito grande. Na área do solar, eólica, biomassa. São energias que nós dominamos completamente e utilizamos cada vez mais, sendo mesmo inovadores em muitas áreas dessas. Depois nós temos exemplos de aplicação de novas tecnologias ao domínio da indústria automóvel em matéria de componentes, sub-componentes e em matérias informática, que é invejável. Ainda recentemente vi um relatório produzido pela Volkswagen, que com sabe tem uma grande fábrica em Portugal, ao pé de Palmela, a Auto Europa. A nossa Auto Europa tem permanentemente os melhores prémios dentro do universo Volkswagen. Os engenheiros, os operários especializados em matéria de eficiência, em matéria de produtividade, em matéria da inovação e, sobretudo, em matéria de adaptabilidade: resolver problemas, encontrar soluções. Nos somos altamente qualificados.

PP – Para além da tal coesão social que já tinha referido!

Emb.: Repare, em matéria social Portugal tem um deficit de imagem. Nisso concordo consigo e reconheço que há, em muitas zonas do mundo, não só da Europa, um deficit de imagem. Portugal é ainda associado a uma certa imagem que nós estávamos habituados a ver. Até muitas vezes quase caricaturalmente em publicidade ou promoção turística feita por nós mesmos, em que apresentávamos, enfim, uma imagem de um Portugal rural, de um Portugal ancorado num passado semi-mítico e semi-romântico. Portugal, hoje em dia, não tem nada a ver com o país que éramos há trinta cinco anos atrás. Só quem não tem essa memória, quem não viajou em Portugal há trinta ou quarenta anos atrás, e quem o faz hoje por comparação, não tem noção de como Portugal mudou. Portugal mudou imensamente.
PP – Tem que se vender essa imagem do Portugal moderno!

Emb.: Sim, tem que se vender essa imagem de um Portugal moderno, um Portugal inovador, um Portugal capaz, do ponto de vista tecnológico, de competir com os melhores. E este termo competir, competitividade é a chave porque numa economia global e numa economia cada vez mais integrada e aberta como a economia europeia ou somos competitivos ou morremos. Para ser competitivos é preciso ter as estruturas, as reformas estruturais necessárias para promover essa competitividade. Por isso é que, quando se fala em crescimento económico, se associa competitividade ao crescimento económico porque uma coisa sem a outra não faz sentido. Ainda pensando na imagem, se olhar para o que os portugueses fazem no estrangeiro, para além dos exemplos tradicionais, os portugueses que vivem e trabalham fora de Portugal são bem comportados. Esta imagem tradicional do português que é trabalhador, que é cumpridor, que é respeitador da ordem e da lei – são características nossas, que nos são inerentes. Nós somos muito mais atlânticos do que mediterrânicos em termos de mentalidade. Nós somos um povo ordeiro, trabalhador, responsável. Temos evidentemente os nossos defeitos, como todos os povos, mas temos sobretudo muitas virtudes. Para além disto, hoje em dia, o português que vive e trabalha no estrangeiro é qualificado, é mais jovem, participa mais na vida das comunidades locais, tem um maior envolvimento nas organizações da sociedade civil, tem um maior empenhamento político, está alerta, é tecnologicamente mais avançado. E é essa imagem moderna e inovadora de Portugal e dos portugueses que compete ao embaixador de Portugal passar e é isso que eu estou a tentar fazer.
PP – O que é que o Senhor Embaixador entende por diplomacia económica? Poderia explicar sucinta e simplesmente aos nossos leitores?

Emb.: A diplomacia económica é pôr a nossa diplomacia ao serviço do desenvolvimento económico de Portugal, do desenvolvimento das empresas portuguesas, quer sejam públicas quer sejam privadas, sem distinção. A diplomacia é relações públicas, é networking, como agora se diz, é a criação de redes de contactos e de conhecimento, é a possibilidade de promover marcas, produtos, sectores, e isso só é possível desde que não parta apenas de iniciativas individuais, da boa vontade deste ou daquele, mas parta de uma política concertada e de uma estrutura criada para o efeito. Como sabe, recentemente, o governo português decidiu colocar a AICEP em processo de fusão com as instituições tradicionais do Ministério dos Negócios Estrangeiros e colocar a AICEP e o Ministério dos Negócios Estrangeiros sob a alçada governamental do mesmo ministro em articulação com o ministro da economia. Porquê? Justamente para que as embaixadas de Portugal e os sectores de negócios, as representações, as delegações da AICEP pudessem estar em total sintonia e a trabalhar para o mesmo fim. O que nem sempre aconteceu no passado. E nós fomos ultrapassados largamente por muitos outros países competidores nossos, embora parceiros no quadro da UE, muitas vezes, que fazem isso há já muito mais tempo do que nós. E sobretudo fazem isso de uma forma muito mais eficaz. É fundamental compreender que essa articulação entre a AICEP, o Turismo e o Ministério dos Negócios Estrangeiros tem que acontecer não só em Lisboa mas também no estrangeiro, onde essas redes de articulação são mais precisas. E é evidente que sendo a Alemanha um dos mais importantes mercados para Portugal, e um dos mais importantes parceiros económicos, como sabe os números indicam que do ponto de vista das nossas transacções a Alemanha é o segundo maior parceiro para Portugal e, naturalmente, tende a crescer. Temos que utilizar a Embaixada em Berlim e os serviços do AICEP em Berlim como exemplo, como paradigma, dessa articulação. Estamos dispostos a fazê-lo, estamos determinados a fazê-lo e temos um mandato para o fazer. Eu cheguei no mesmo dia em que chegou o novo representante do AICEP e trabalhamos manu a manu, trabalhamos em estreitíssima articulação, e vamos continuar a fazê-lo.
PP– Pego no que o Senhor Embaixador acabou de dizer, para lhe perguntar como se pode reforçar as exportações de Portugal para a Alemanha?

Emb.: Reforçar procurando que os produtos portugueses, que são efectivamente produtos de qualidade, e que estão prontos para serem exportados, encontrem o caminho progressivamente acrescido do mercado alemão. Nós temos empresas notáveis. Não posso estar a referir nomes individualmente. Há pouco referi no campo das energias renováveis um exemplo muito conhecido, mas nós temos no domínio dos moldes, temos no domínio do vinho, temos no domínio do turismo, temos no domínio da incorporação tecnológica em sectores muito avançados empresas que rivalizam com as melhores empresas do mundo. No domínio das energias, mesmo energias alternativas que podem tanto ajudar a Alemanha, num momento em que a Alemanha se encontra a transitar do nuclear para outras fontes de energia. Uma decisão importante recentemente tomada pelo governo alemão. Portanto, nós temos que aumentar as nossas exportações ao mesmo tempo que promovemos condições para atrair mais investimento alemão em Portugal.
 

PP – Na sua opinião, como é que os portugueses residentes na Alemanha podem contribuir para tornar os produtos portugueses mais atraentes?

Emb.: Os portugueses podem contribuir de várias maneiras. Consumir coisas portuguesas, fazer férias em Portugal é algo que está outra vez na ordem do dia. Mas eu julgo que isso faz parte da nossa agenda, digamos assim, colectiva e individual. Os portugueses podem contribuir no sentido em que eles é que são os agentes do quotidiano no seu relacionamento com os interlocutores alemães. Eles é que são os agentes dessa mudança, dessa nova imagem de Portugal. O Embaixador sozinho poderia pouco, a Embaixada sozinha poderia pouco, se não fosse apoiada na presença da comunidade portuguesa e nos portugueses mais qualificados e representativos que aqui temos. É por isso que, e digo isto sem qualquer pretensão de ser simpático, um jornal que se destina aos portugueses, como é o caso do seu jornal, é um instrumento importantíssimo da imagem de Portugal porque chega a muita gente. Transmite imagens escritas, fotográficas e mentais que têm um impacto sobre as pessoas. Não querendo nunca dar a impressão que estou a ser demasiado optimista, ou a vender ilusões, isso nunca farei, procurarei sempre até ser mais cautelosos e pessimista do que optimista, mas eu acho que Portugal está no bom caminho e isso tem que ser dito, e tem que ser dito por todos nós! Não pode ser dito apenas pelo embaixador de Portugal.
PP – Como é que o Senhor Embaixador se vai aproximar e dialogar com a comunidade portuguesa na Alemanha?

Emb.: Já comecei a fazer isso. Logo na minha primeira semana de funções, fui a Düsseldorf e a Estugarda onde estive com representantes das comunidades portuguesas. Já tinha estado aqui com representantes das comunidades em Berlim logo no dia a seguir à minha chegada. Procurei sobretudo passar a mensagem de que eu estou à inteira disposição da comunidade portuguesa. E eu quero dizer isto não como uma figura de estilo ou uma manifestação simpática mas efectivamente dizer que os consulados, a embaixada estão ao serviço das comunidades portuguesas, ao serviço e com vontade de estar em perfeita sintonia e à escuta daquilo que são as necessidades, as preocupações e os anseios das comunidades portuguesas. Sempre na perspectiva de que vamos passar uma mensagem de que vamos vencer e de que somos capazes de vencer as dificuldades da forma mais honrada e exemplar possível. Não contam comigo para lamúrias. Contam comigo exactamente na perspectiva de poder transmitir uma acção determinada para vencer as dificuldades.
PP – Como vê a questão do ensino do português aos luso-descendentes na Alemanha?

Emb.: É evidente que tive ocasião de estar também com os portugueses que ensinam na Alemanha a língua portuguesa. Houve um encontro com os professores em Weilburg e eu tive ocasião de estar com eles, tive ocasião de me aperceber das críticas, das perguntas, das questões que muitos levantam à mudança que está em curso na forma de aplicar regras que permitam, é esse objectivo do governo português, tornar mais eficaz o ensino da língua portuguesa. É evidente que, como acontece sempre, todas as alterações suscitam interrogações e questões. Aquilo que tem que haver é diálogo e pessoas de um lado e do outro que possam compreender exactamente o que é que se pretende fazer e depois fazer ajustamentos, ir ao encontro das dificuldades de uns e de outros, introduzir alterações na perspectiva de que, como somos todos pessoas sérias, vamos encontrar uma forma de obter os melhores resultados.
PP – Como vê a questão da propina?

Emb.: Com toda a franqueza, eu acho que não se trata de uma propina. Trata-se de uma contribuição, sobretudo para a certificação dos diplomas e para melhorar a qualidade do ensino. Estamos a falar de um valor que representa dez euros por mês por aluno. É evidente que dez euros por mês por aluno para uma família que tenha dificuldades financeiras, e que tenha muitos filhos, na qualidade de alunos, isso pode representar uma carga significativa mas, nesses casos, as autoridades portuguesas, a começar pela coordenação do ensino, pela Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, pelos consulados e pela Embaixada cá estão para ajudar em situações comprovadamente difíceis. Isso faz parte das regras do jogo. Evidentemente que há mecanismos que permitem fazer face as dificuldades. Agora, é evidente também que, do ponto de vista estritamente objectivo, nós pensarmos numa anuidade que representa dez euros por mês, por aluno, para a esmagadora maioria das famílias, não é um encargo financeiro que se possa considerar exagerado tendo em vista os fins que se pretende alcançar. E que fins são esses? É importante ou não a certificação de diplomas? É muito importante. Isso é um processo oneroso. É um processo que o estado português tinha assumido. Sim, quando tinha dinheiro! Agora tem menos e tem de fazer face a esse tipo de responsabilidades. É evidente que a introdução desta anuidade, como todas as medidas novas, sobretudo as medidas que representam encargos, é uma medida que é sujeita, como é normal numa sociedade aberta e democrática como a nossa, a debate e a críticas, mas tem de ser explicada e objecto de diálogo. E devo dizer-lhe que em Weilburg quando tive ocasião de estar com os professores, aquilo que mais senti foi a vontade que as pessoas têm de dialogar, de perceber e de transmitir a sua opinião e encontrar soluções. Encontrei sobretudo uma perspectiva de empenhamento, de seriedade, de vontade. Conheço bem o universo dos professores em Portugal. São uma classe de profissionais que eu respeito muitíssimo, são, absolutamente, indispensáveis para a sociedade portuguesa, para o tecido social português, quer seja em Portugal quer seja no estrangeiro, e são profissionais altamente qualificados e que nos merecem o maior respeito. A forma como eles na sua grande maioria têm contribuído para apoiar os encarregados de educação neste processo de introdução de inovações é extraordinária. Esta disponibilidade, muitas vezes, com sacrifício dos seus próprios tempos livres e do descanso a que têm direito. Há aqui exemplos de solidariedade que devem ser sublinhados. Efectivamente, o objectivo das medidas é melhorar o sistema. Como digo, todas estas questões são discutíveis e todas estas questões são susceptíveis de introdução de alterações que visam melhorar o sistema. O ensino da língua portuguesa é um aspecto fundamental. Há várias formas de o fazer. Há várias teorias em relação a isso. O português integrado no sistema oficial de ensino, o português como língua materna num sistema de ensino paralelo, há muitas ideias e há muitos sistemas em prática. Aquilo que a mim me parece fundamental é que nunca se perca de vista dois aspectos essenciais: no longo prazo, numa perspectiva estratégica mais uma vez. Em primeiro lugar os portugueses. Em países como a Alemanha, e como outros da UE, são cidadãos da UE. Nós somos europeus. Estamos na Europa. E portanto, estamos na Europa, estamos em casa. Estamos na nossa casa comum. A nossa integração nas sociedades que nos acolhem é fundamental e é natural. As comunidades portuguesas cada vez mais, progressivamente, são comunidades cada vez melhor integradas, por todas as razões, a começar pela cultura que partilhamos e que é a cultura europeia. E no fundo, esse desejo de integração é relevantíssimo para que a vida dos portugueses que estão no estrangeiro seja cada vez mais facilitada e cada vez mais posta ao serviço da comunidade. Por outro lado, é muito importante que os portugueses que vivem no estrangeiro não percam as suas raízes nem a sua ligação a Portugal. E isso é obviamente uma preocupação do Estado, uma preocupação do governo português, mas sobretudo uma preocupação dos próprios.
PP – E por outro lado também da política económica! Porque se a segunda e terceira gerações continuarem em contacto com a língua portuguesa, isso resultará automaticamente na manutenção do contacto com a cultura portuguesa, no eventual desejo de viajar para Portugal e de consumir produtos portugueses!

Emb.: Absolutamente, esse aspecto também é relevante!
PP – Senhor Embaixador, não lhe parece que estes 120 euros poderão alienar uma parte dos luso-descendentes do nosso país? Afinal já Fernando Pessoa o tinha reconhecido na frase “a língua portuguesa é a minha pátria”!

Emb.: Francamente acho que se a questão fosse, que não é, uma contribuição de dez euros por mês para preservar a qualidade do ensino do português no estrangeiro e a certificação de diplomas, eu acho que estamos a falar de um montante simbólico.

PP – Mas o que as pessoas vêem como uma propina, o Senhor Embaixador acabou de explicar de uma forma que não cai nessa classificação!

Emb.: Eu não a vejo como uma propina, nem sei de onde veio a terminologia propina, e julgo que tecnicamente não há nada que justifique a utilização dessa palavra.
PP – Actualmente existe uma petição contra essa “propina” e há mesmo um movimento contra a “propina”, extremamente activo, que se recorre de um direito fundamental da constituição portuguesa – o direito à educação. Este é mesmo um dos argumentos de maior peso daquela luta.

Emb.: Esses debates são normais em sociedades democráticas e abertas como a nossa e são bem-vindos. Onde há debate há liberdade e isso é muito importante, isso é o mais importante. Qualquer situação conflitual tem que ser resolvida pelo debate, não há outra solução. Sempre partindo do princípio que as coisas que eu disser e fizer, fá-lo-ei sempre numa perspectiva de seriedade. E, desde que as pessoas aceitem esse princípio, todo o debate é possível e as soluções são encontradas na base do debate e do diálogo.

PP – As posições dos actores no movimento parecem ter-se extremado!

Emb.: As pessoas vivem estas coisas de uma forma apaixonada porque, no fundo, isto tem a ver com a vida delas, é normal que seja assim. É muito compreensível, é muito natural que em questões que tocam directamente a vida de cada um, a sua profissão, o entendimento que cada um tem da forma como exercer a sua profissão, que estas questões sejam apaixonadamente debatidas. No entanto, devo dizer-lhe o seguinte: não se pode confundir, e isto é uma questão de boa-fé, a maioria com os mais activos. Isto é importante referir-se porque a um grande activismo nem sempre corresponde um sentimento generalizado. Mas é sempre assim e é normal que seja assim. E no fundo, quem não participa mais activamente é muitas vezes prejudicado, justamente porque não participou. Repare que em democracia, se uma pessoa não votar, alheia-se do debate político-partidário e do acto eleitoral, evidentemente, não se pode queixar se a cor política do governo que venha a ser eleito não lhe agradar.
PP – Está para quando a construção da nova Embaixada?

Emb.: Como sabe temos um terreno mas julgo que neste momento está fora de causa construir a nova embaixada de Portugal em Berlim. Eu até acho que seria o sinal errado num momento em que Portugal tem o programa de ajustamento que tem e está a cumpri-lo de uma forma determinada – não me parece que a prioridade seja construir uma nova embaixada de Portugal em Berlim. Não é indispensável neste momento como instrumento de transmissão da imagem inovadora e dinâmica que queremos transmitir. E aquilo que é indispensável transmitir é uma imagem de seriedade e de contenção.
PP – Em que moldes se vai realizar o dia 10 de Junho deste ano?

Emb.: Do ponto de vista oficial vai ser celebrado em vários sítios da Alemanha. Os consulados gerais vão ter as suas festas por ocasião do dia nacional quer em Estugarda, quer em Düsseldorf, quer em Hamburgo e nós aqui vamos também em torno da embaixada organizar um momento de comemoração do dia nacional. Não vamos fazê-lo no dia 10, especificamente, mas no dia 5, vamos antecipar cinco dias, porque vamos aproveitar o facto de a TAP começar a voar directamente de Lisboa para Berlim, o que está garantido a partir de Schönefeld, e apesar do adiamento da inauguração do aeroporto Willy Brand, a TAP mantém o seu compromisso de começar a voar a partir do dia 5 de Junho. Portanto não alterou minimamente esse compromisso. Evidentemente, com uma recepção para a qual serão convidados os portugueses que são representativos ou mais representativos da comunidade portuguesa que está em Berlim. Mas, sobretudo, queremos que a nossa audiência, sejam empresas, sejam pessoas ligadas ao sector económico, sejam decisores económicos e políticos alemães que possam ser veículo deste aprofundamento das nossas relações económicas e comerciais. Vamos ter uma festa bonita, onde não faltará a componente cultura portuguesa, porque vamos ter música e gastronomia portuguesas, vinhos portugueses, vamos ter a oportunidade de fazer um sorteio de bilhetes de avião da TAP para comemorar o voo inaugural. Vamos ter apoios de empresas portuguesas, como a Sogrape, a Caixa Geral de Depósitos e os hotéis de capital português de grande reputação em Berlim, como o hotel Pestana e o hotel Sana, vão ter um papel predominante nesta nossa festa.
PP – E planeia algumas alterações para os anos seguintes?

Emb.: É a minha intenção, e já tive oportunidade de falar sobre isto com os cônsules gerais, a partir do próximo ano tentar organizar na Alemanha uma festa oficial única e fora de Berlim, ou seja, a minha ideia é descentralizar os festejos do Dia Nacional. Por exemplo, fazer em 2013 em Düsseldorf, 2014 em Estugarda, 2015 em Hamburgo, ou por outra ordem diferente mas a ideia é em vez de termos festas oficiais separadas termos uma festa preparada com muito cuidado por uma comissão organizadora que no fundo simbolize o Dia de Portugal na Alemanha e que seja feita em grande sintonia com as autoridades locais, que certamente ficarão muito honradas pelo facto de o Dia Nacional, os seus festejos terem lugar fora do círculo habitual da capital e não no círculo tradicional e oficial da capital. É uma boa forma de convidarmos empresas locais.
Como referi a presença da gastronomia e cultura portuguesas, queria dizer umas palavras sobre a importância que atribuo à vertente cultural. Quando falo da dimensão cultural não estou a falar daquilo que a embaixada pode fazer porque aquilo que a embaixada pode fazer é sempre muito pouco e muito limitado, porque os meios também são limitados. Aquilo que a mim me interessa é promover as sinergias e as complementaridades entre aquilo que a embaixada culturalmente pode fazer e todos os agentes que na Alemanha promovem efectivamente a cultura portuguesa. Nós temos aqui em Berlim, como temos pela Alemanha fora, músicos portugueses, cantores, artistas plásticos, artistas de teatro e quantas vezes essas actividades são levadas a cabo de uma forma que não é sinérgica, que não explora o efeito multiplicador que pode resultar das complementaridades. A minha ambição é pôr-me ao serviço dessas iniciativas, como facilitador no sentido de procurar promover essas várias complementaridades, porque assim chegaremos a muitos mais sítios e faremos muito mais do ponto de vista cultural. Insisto que, nesta vontade da embaixada chegar mais depressa aos nossos interlocutores, quer sejam os portugueses quer sejam os alemães, estamos a fazer um uso muito sério das redes sociais e das plataformas informáticas. Vem aí uma Newsletter cultural que é uma coisa muito diferente da agenda cultural que existia até agora. Há portanto vontade de fazer muito, vontade de fazer bem e, sobretudo, vontade de estar ao serviço dos interesses comuns e os interesses comuns são a imagem e o futuro de Portugal.
Berlim: de Cristina Dangerfield-Vogt

Disponível em: http://www.portugalpost.eu/index.php?id=29&tx_ttnews%5Btt_news%5D=233&cHash=4a9d83436353dbd2583b703707649587

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