“Gonçalo Cadilhe, o viajante radical”, por Ana Maria Delgado

Cadilhe 2Poderá escapar ao observador distraído – e somos todos observadores distraídos nesta era televisiva e mediática – assistindo a uma das conversas de Gonçalo Cadilhe, que é também um comunicador de excelência e sabe entretecer os relatos das suas viagens com histórias divertidas e cheias de humor, que nos fazem rir e sorrir, o tipo de viajante que este ainda jovem português é. Nasceu na Figueira da Foz em 1968 e licenciou-se em Gestão de Empresas mas, em vez de optar por uma carreira estável de gestor, abandonou tudo, emprego, família e país natal, para começar a viajar e escrever. Uma escolha radical, digna do protagonista do filme de Alain Tanner Charles mort ou vif.

Escolha radical, antes de mais, por aceitar da condição humana aquilo que a maior parte de nós tenta exorcizar: a nossa curta vida é uma viagem entre nascimento e morte, a nossa condição inelutável o movimento e a transformação. Radical ainda o que daí advém: à aceitação de uma vida que permanentemente está “fora” , e aprende a designar também como sua casa, terá de corresponder a escolha de radical abertura ao Outro.

Abertura ao Outro que levará o nosso viajante entusiasta e radical a fazer travessias oceânicas em cargueiros durante meses de solidão; a “não escutar mais notícias depois do 11 de Setembro” ; a questionar preconceitos e lugares-comuns sobre o Outro e sobre a própria identidade, repensando radicalmente “mitos de portugalidade”. Levá-lo-á ainda de uma escrita mais ligada à crónica de viagens para uma escrita mais e mais introspectiva.

Não nos é difícil imaginar que Gonçalo Cadilhe continuará o seu belo e radical percurso com mais viagens e mais textos que nos farão pensar, seguindo o conselho do poeta de “Ítaca” , e recordando-nos a observação de Melville: “E se fores um filósofo, mesmo estando sentado no barco de pesca à baleia, não sentirás no fundo do teu coração nem um bocadinho mais de terror do que se estiveres sentado em tua casa ao serão em frente da lareira, com um jogo de póquer e não um arpão ao teu lado.”

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