“Portugal, mon amour” ou a “Gaiola dourada” chega à Alemanha a 29 de agosto

La Cage doréeQuando “Portugal, mon amour” se prepara para estrear na Alemanha, o Público publica uma excelente análise do filme e do seu possível impacto. Reproduzimos o seu conteúdo.

Os emigrantes saíram da gaiola para mostrar o que é a vida normal

Quando se fala de uma vaga jovem de emigração portuguesa, eis um filme que acerta as contas com um imaginário: a aventura emigrante dos anos 60 e 70. A Gaiola Dourada é um sucesso.

Angelina vive em França quase desde sempre. Deixou Barcelos ainda jovem à procura de uma vida melhor para que depois um dia pudesse voltar à sua terra. Mas por lá, nos arredores de Paris, casou-se, também com um emigrante português, e teve um filho; o sonho do regresso ficou adiado. Passou os anos a trabalhar e nunca na vida tinha ido ao cinema. Até Abril. Quando A Gaiola Dourada estreou em França e o filho a presenteou com os bilhetes, nunca imaginando Angelina que sentada naquela sala de cinema se sentisse tão parte daquela história. Ligou para Portugal e não se cansou de falar do filme de Ruben Alves. A sua família em Portugal ainda não viu o filme mas já se identifica com a história. Deve ser este, afinal, um dos grandes motivos do sucesso de A Gaiola Dourada, filme que depois de em França ter sido visto por mais de um milhão de espectadores, em Portugal já soma mais de 150 mil em duas semanas.

Que filme é este que em pleno mês de Agosto, mês de férias e festas, tem levado milhares de pessoas ao cinema? Que Portugal é este que aparece representado? Ou devemos dizer: que França é esta que o filme nos mostra?

Quando Maria (Rita Blanco), uma porteira num bairro rico de Paris, surge no ecrã apressada no início de mais um dia de trabalho, essa mulher poderia ser Angelina. À sua volta todos sabem que todo o tempo disponível é bom para trabalhar mas em Portugal nem imaginam o que Maria, ou Angelina, faz. Não imaginam que aquela emigrante que em Agosto vem de férias visitar a família, durante o ano mal sai de casa para um fim-de-semana algures ou apenas para um jantar num qualquer restaurante. A Angelina foi preciso o filho mostrar-lhe que há vida para além do trabalho e que uma ida ao cinema de vez em quando faz bem. A Maria e ao operário José (Joaquim de Almeida) também foram os filhos Paula (Bárbara Cabrita) e Pedro (Alex Alves Pereira) que os obrigaram a passar uma noite longe do fogão e do sofá.

Humanizar os clichés

“Este é o Portugal dos portugueses em França e até agora ainda não tinha sido mostrado desta forma”, diz ao PÚBLICO Hermano Sanches Ruivo, filho de pais portugueses emigrantes em França. “Esta história é verdadeira e não temos de ter vergonha dela. As pessoas são assim e mesmo nos exageros de Ruben Alves a verdade está lá. Os portugueses dizem asneiras, jogam às cartas e gostam de futebol”, explica o luso-descendente, que é conselheiro na câmara de Paris.

Para Sanches Ruivo, A Gaiola Dourada é a história dos portugueses que trocaram Portugal por França nas décadas de 1960 e 1970. “É preciso que quem está mais longe entenda o que é estar fora e até agora faltava essa compreensão”, continua o luso-descendente, advogado de formação como Paula, a filha de Maria que no filme acaba envolvida com o filho do patrão do pai. “A verdade é que há em Portugal muitos preconceitos, principalmente quando chega esta altura em que os emigrantes vêm de férias. São muitos os que criticam e gozam sem sequer imaginarem a vida que aquelas pessoas levam por lá.”

Mas mais importante, diz Sanches Ruivo, é mostrar aos franceses esta realidade. No filme de Ruben Alves, Maria e José passam os dias a trabalhar, sem nunca terem coragem de dizer não a quem quer que seja. Mas a recompensa, essa, tarda em chegar: o prometido aumento de casa que não acontece ou a promoção há tantos anos desejada e que nunca mais chega. “E não deixa de ser interessante ver a reacção das pessoas quando percebem que podem perder a Maria e o José. De repente dão-lhes tudo o que eles pediram durante anos porque percebem que como estes portugueses dificilmente vão encontrar. E é isto mesmo, estes portugueses mostraram que são bons trabalhadores, que são pessoas de respeito e não há ninguém em França que não goste deles. Podem não ter estudos mas são bons no que fazem”, explica Sanches Ruivo, esperando que A Gaiola Dourada, com todos os clichés e referências que tem, mostre que as gerações seguintes, os filhos destes portugueses, não têm motivos para ter vergonha do passado humilde dos pais – há um momento no filme em que isso acontece com o filho mais novo do casal.

“Nós, os filhos, já não somos portugueses, nascemos aqui, crescemos aqui e por isso adquirimos outras bases que os nossos pais não tinham antes. O Ruben Alves é um exemplo disso, filho exactamente de uma porteira e de um operário, e agora vinga no cinema. Eu cheguei à Câmara de Paris e exemplos assim não faltam”, conta Sanches Ruivo, que acredita que mesmo assim a ligação a Portugal nunca se perde. “São muito poucos aqueles que nunca mais vieram a Portugal.” Mas avisa: “É preciso que Portugal também faça alguma coisa por nós.”

Emmanuelle Afonso, presidente do Observatório dos Luso-Descendentes (OLD), começa por apontar o dedo ao Governo português, que devia investir no ensino da língua fora do país. “Há pessoas que não entendem por que é que os pais entre eles até falam português mas depois com os filhos falam em francês, esquecendo-se que não há nada que os incentive a tal. Se nós, filhos de emigrantes, percebemos e falamos português é porque os nossos pais nos ensinaram”, aponta a responsável, que já viu o filme cinco vezes. “Quanto mais vezes virmos o filme mais lições tiramos, para mim fica a homenagem aos emigrantes que conseguiram dar uma nova vida aos seus filhos que hoje já chegam a cargos de topo”, diz Emmanuelle Afonso, sem querer dar um tom político ao filme. “Mas que é uma ajuda na mudança de mentalidades, disso eu não tenho dúvidas. Até porque durante muito tempo falar da emigração doía e o Ruben Alves consegue com este filme um efeito terapêutico.”

Hermano Sanches Ruivo é da mesma opinião e defende que Portugal só tinha a ganhar se conseguisse seduzir estas gerações mais distantes. “Num momento em que se fala que há cada vez mais pessoas interessadas em aprender o português, não entendo como não existe ainda um programa pensado nesse sentido”, diz o luso-descendente, para quem as comunidades portuguesas deviam ser usadas por Portugal como “trampolins para outros investimentos”.

É por isso que garante que este filme vai ficar na memória. “Principalmente numa altura em que tantos jovens estão novamente a sair de Portugal, não podemos correr o risco de perder a ligação com estes nossos portugueses”, diz.

José Carlos Marques, sociólogo especialista em emigração, destaca que os portugueses que partiram para França naquela época não são os mesmos que partem agora. “Têm outras ambições, procuram outros desafios e por isso quando partem já não é com a ideia de um dia voltar, no fundo os que partem agora são a segunda geração representada no filme”, diz o investigador, para quem o mais importante no trabalho de Ruben Alves foi a maneira como o realizador representou “o estereótipo de forma muito bem conseguida”. “O que vemos ali é o que percorre o nosso imaginário há muitos anos mas acaba com a ideia de que estes portugueses são uns coitadinhos. O que eles fazem ali é viver a sua vida normal.”

Mais informações em: http://www.kino-zeit.de/filme/portugal-mon-amour

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